Category Archives: Recomendações

The Starter, de Scott Sigler

Sinopse: Parte 2 da Galactic Footbal Saga, cenário vários séculos no futuro, onde a maioria das raças inteligentes foi dominada por um império alienígena. Os conflitos praticamente acabaram, e agora esses seres todos tentam conviver em harmonia. Um dos meios mais populares de atingir esse objetivo é através de esportes, mais especificamente, do futebol americano disputado por times integrados por vários tipos diferentes de alienígenas. O protagonista é Quentin Barnes, jovem humano que lidera o time Ionath Krakens, em busca do primeiro lugar no campeonato da Liga Galáctica de Futebol Americano.

Capa:
the starter
© Dark Øverlord Media

Trechos:

DAN: Line three from Chachanna, you’re on the space, go. CALLER: Quentin Barnes is a god! DAN: A Sklorno fan of Barnes, who’d have thunk it? AKBAR: This is always so uncomfortable… CALLER: Do not blaspheme Quentin Barnes, or he will cause the suns to supernova and destroy you all! TARAT: I don’t think he can do that. DAN: Caller, tell me more about this Cult of Barnes, because I know our non-Sklorno fans just love to laugh about… I mean… love to hear about it. Continue!

O resto desta sinopse contém spoilers!

Pontos altos: A complicada situação dos Krakens, recém-promovidos para o tier 1 da Liga, mas sem tempo para descansar ou repor jogadores feridos, fez de The Starter um livro mais interessante e rico que o primeiro. Com o objetivo apenas de não serem rebaixados, ao invés de necessitarem de uma vitória absoluta, vemos os Krakens lidando com novos problemas dentro e fora do campo. A fama recém-adquirida, problemas com dinheiro, preconceito, família, são todos elementos que deixaram o universo da Galactic Footbal Saga mais vivo.

E a descrição das partidas continua emocionante, mesmo quando você não entendo os aspectos técnicos do jogo – bem cinematográficas.

Pontos baixos: Não há qualquer sombra de um relacionamento amoroso na vida do protagonista (o assunto chega a ser mencionado apenas no terceiro livro), e boa parte de suas atitudes infantis, apesar de atribuídas à sua criação em um planeta horrível, são irritantes. Muitos dos personagens coadjuvantes ganham profundidade nesse volume, e isso acaba demonstrando o quanto Quentin ainda é exageradamente criança, apesar de todas as experiências que passa.

E assim como a ação é cinematográfica, a trama do livro também. Mais um volume com final feliz, que você percebe se aproximar antes mesmo da metade da história. Isso acaba prejudicando a empatia pelos personagens, quando você sabe que eles sempre irão acabar bem.

Pontuação final: 651. Ênfase demais na adolescência do protagonista.

Características:
The Starter
Scott Sigler
Dark Øverlord Media
483 páginas
US$ 3,82 (Amazon) ou grátis em áudio (Podiobooks)

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Conflict of Honors, de Sharon Lee e Steve Miller

Sinopse: Segundo livro da saga Liaden, baseado em um futuro onde a raça humana se espalhou tanto pelo universo que deu origem a outras espécies. Desta vez os protagonistas são Priscila e Shan, uma humana exilada de seu planeta natal, e um liaden do clã Korval, a principal família de personagens na franquia. Priscila tem problemas na nave mercante em que trabalha, especificamente com o chefe que tenta incriminá-la quando ela descobre irregularidades na carga. Após ser abandonada em um posto comercial minúsculo, consegue emprego na nave de Shan, que, tentará ajudá-la, se finalmente conseguir fazer com que ela confie nele.

Capa:
Conflict of Honors
© Baen

Trecho:

“As she pushed, there was a shadowy movement behind her, and she heard Dagmar say, “Can’t be all that smart now, can ya, Prissy?” Then something clipped her behind the ear and she crumpled sideways, tasting salt.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: A franquia Liaden parece sempre se concentrar em casais protagonistas, e pelo menos até o terceiro volume (que estou lendo agora), a tradição tem se mantido. Neste segundo livro temos um casal ainda mais interessante que o apresentado no romance original. Priscila não consegue acreditar em ninguém após tantas experiências ruins, e está sempre sofrendo sozinha como consequência. Enquanto Shan quer se aproximar e ajudá-la, sabe que qualquer ação precipitada pode estragar tudo. Então temos um relacionamento deliciosamente constrangedor, se desenvolvendo lentamente enquanto uma luta política e comercial entre dois poderosos clãs liaden é travada.

Pontos baixos: Enquanto ganhamos em qualidade de protagonistas, perdemos no quesito vilões. O inimigo principal, mestre comerciante da nave Daxflan, é mesquinho e desumano, mas parece agir apenas por infantilidade contra Shan. No final do livro tentam até justificar suas atitudes como problemas mentais, o que é mais triste que satisfatório. E Dagmar, a inimiga pessoal de Priscila é uma lésbica obesa e com problemas de higiene pessoal, temida por seus hábitos de assédio sexual contra subordinadas. Em suma, um estereótipo completo (ainda que do sexo oposto), que, repentinamente, se torna uma homicida psicótica sem uma boa justificativa. Tenho a impressão que os autores estavam testando vilões diferentes dos mafiosos ou Yxtrang do primeiro livro, e acabaram conseguindo isso.

Pontuação final: 693. Um casal de protagonistas simplesmente adorável.

Características:
Conflict of Honors
Sharon Lee e Steve Miller
Baen
311 páginas
US$ 5 (avulso) US$ 8,99 (pacote de três livros)

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Gun Machine, de Warren Ellis

Sinopse: O detetive novaiorquino John Tallow está tendo um péssimo dia. Logo após uma tragédia no serviço, descobriu acidentalmente um apartamento coberto por centenas de armas, em posições complexas, cobrindo o chão, paredes, teto. Ter que ouvir os técnicos reclamando do trabalho que vão ter catalogando tudo parecia ser o pior que ia sair disso, mas as descobertas que fazem quanto à origem dessas armas, e no que foram utilizadas, vão simplesmente transformar a vida de Tallow. E talvez acabar com ela.

Capa:
gun machine
© Mulholand Books

Trechos:

“So here I am, with a career-ending job and a working partner with the magical talent of making guns shit themselves in his face.”

“Bat stood in the open door and said, “I am a Crime Scene Unit detective from the New York City Police Department, you heinous fucking mongoloid, and there is nothing I cannot do.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Gun Machine tem uma premissa incrível, capaz de atrair leitores apenas com a imagem de um apartamento forrado de armas dispostas de maneira ritualística. Mas o que vai manter esse pessoal lendo é a personalidade de seus três protagonistas: Tallow, Bat e Scarly. Enquanto o detetive atravessa um mundo realista, sórdido e sujo, a dupla de técnicos ajuda a aliviar um pouco essa miséria toda, com seu senso de humor, excentricidade e camaradagem.

Pontos baixos: O final é muito fraco – ridícula e incrivelmente fraco. Resumindo em uma frase o confronto final com o maior serial killer da história da humanidade: Tallow atropela ele. E dai em diante as peças todas se encaixam perfeitamente, um final feliz que parece ter sido escrito por um autor diferente. Talvez a presença em sets de filmagem hollywoodianos, que compram suas histórias em quadrinhos, tenha amaciado o Warren Ellis, convencido ele a produzir um final mais “vendável” para adaptações.

Pontuação final: 659. Uma ameaçadora arma engatilhada que na verdade está sem balas.

Características:
Gun Machine
Warren Ellis
321 páginas
Mulholand Books
US$ 11,04 (Amazon)

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The Hour of the Dragon, de Robert E. Howard

Sinopse: Conan está no auge de seu reinado na Aquilônia, a maior nação da Era Hiboriana. Mas tudo que conquistou pode ser destruído por uma conspiração encabeçada por invejosos nobres de países vízinhos, membros de sua própria corte e um ex-sacerdote de Mitra que se voltou para as sombrias artes arcanas. Juntos recuperam o Coração de Ahriman, um artefato tão velho quanto o mundo, e o utilizam para ressuscitar um poderosíssimo mago, capaz de garantir a vitória dos conspirantes contra o exército aquilônio. O estandarte do leão caiu, e a hora do dragão está prestes a começar.

Capa:
Weird_Tales_December_1935
© Weird Tales

Trecho:

“Ishtar!” he gasped. “It is Xaltotun!-and he lives! Valerius! Tarascus! Amalric! Do you see? Do you see? You doubted me- but I have not failed! We have been close to the open gates of hell this night, and the shapes of darkness have gathered close about us — -aye, they followed him to the very door — but we have brought the great magician back to life.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: The Hour of the Dragon é o único livro de Conan escrito por Robert E. Howard, seu criador – todas as outras histórias do personagem são contos. Temos presentes os elementos que fizeram do personagem um sucesso, seu desprezo por uma civilização que faz de seus integrantes covardes e traidores, feitiçaria, monstros, calabouços povoados por pesadelos, lutas, guerras e o triunfo da pura força humana sobre as trevas.

Pontos baixos: Howard passou toda sua curta vida escrevendo somente contos, e isso fica muito em evidência aqui. The Hour of the Dragon é uma coletânea de pequenas história interligadas por uma trama – a reconquista da Aquilônia, – o que, infelizmente não funciona muito bem. Isoladamente são contos fantásticos (o confronto dos monges guerreiros de Khitai com os sacerdotes estígios, por exemplo), mas olhando de longe, faz pouco sentido um rei exilado passar por tantos perigo sozinho, enquanto exércitos de aliados ficam apenas aguardando seu retorno. Caso ele fracasse, tudo estaria acabado. Conan não é mais apenas um aventureiro, muito mais depende dele do que apenas sua própria vida – e o livro não reflete isso, é como se o bárbaro não tivesse amadurecido apesar das décadas como governante. Infelizmente, não gostei dessa história tanto quanto gosto dos contos originais.

Pontuação final: 682. Uma coletânea mal costurada.

Características:
The Hour of the Dragon
Robert E. Howard
296 páginas
R$ 0* (Project Gutenberg)

*Em domínio público no Brasil.

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City of the Fallen Sky, de Tim Pratt

Sinopse: O alquimista Alaeron está contente com a vida, praticando sua arte e explorando um conjunto de artefatos que “adquiriu” em uma escavação, quando duas pessoas acabam com sua rotina. A primeira é Jaya, uma arqueira com dívidas que ele ajuda em um beco, e o segundo, Kormak, um soldado completamente equipado com poderosos itens mágicos, com a missão de arrastar Alaeron de volta para a Technic League, onde será julgado por ter roubado artefatos. Eles fogem da cidade, planejando cruzar vários países até encontrar uma antiga cidade voadora em ruínas, onde esperam encontrar algo valioso o bastante para pagar as dívidas de Jaya e poderoso o suficiente para ajudá-los contra Kormak, cujos recursos parecem não ter fim.

Capa:
city of the fallen sky
© Paizo Publishing

Trecho:

“While he was alive we argued constantly, about everything from philosophy to what we should eat for dinner – except in the workshop. There, we worked together like two gears in a greater machine, and for a long time after he died, when I’d be working alone, I’d sort of forget he was gone. I’d hold out my hand, you know, and say ‘Number two pipette please,’ and expect him to hand it over.”

O resto desta resenha contem spoilers!

Pontos altos: Como todo livro do Tim Pratt, temos um soberbo núcleo de personagens principais, com fortes personalidades, características distintas e comportamento próprio. É sempre um prazer acompanhar as discussões (diálogos bem escritos!) dos seus protagonistas, bem como suas soluções para os problemas e enigmas em seus caminhos. Outro objetivo alcançado pelo livro é apresentar o mundo do RPG Pathfinder aos leitores, suas maravilhas e perigos – gostei tanto do lugar que teria comprado os manuais, se houvesse com quem jogar.

Pontos baixos: E, também como é típico do autor, seus vilões são bem menos trabalhados – marcantes por suas ações, talvez, mas por suas personalidades, nunca. Os vários confrontos com o Kormak são puro entretenimento, mas ele nunca vai além de ser uma mera máquina da morte, como se estivesse restringido por arreios mágicos guiando suas ações. Nunca sequer cogita desistir ou repensar sua estratégia, apesar dos resultados pouco satisfatórios. E o príncipe ou rei no final do livro, então, ainda não entendi bem qual era o propósito dele lá. O chefão criminoso que guarda a “dívida” da Jaya tem potencial, mas aparece apenas de relance na história.

Pontuação final: 784. Um romance de turismo.

Características:
Pathfinder Tales: City of the Fallen Sky
Tim Pratt
Paizo Publishing
400 páginas
US$ 6,99 (editora)

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O Jogo do Exterminador, de Orson Scott Card

Sinopse: Após ser quase arrasada duas vezes em uma guerra contra insetos alienígenas, a Terra toma a iniciativa de atacar. Como a viagem até o planeta dos Formics é muito longa, precisam encontrar e treinar o melhor comandante possível ainda criança, e enviá-lo para a guerra o mais rápido possível. Ender Wiggin é o mais perfeito candidato que já detectaram em testes preliminares, e agora precisam correr para destruir a criança e criar um general.

Capa:
ender
© Tor

Trecho:

“There is no teacher but the enemy. No one but the enemy will tell you what the enemy is going to do. No one but the enemy will ever teach you how to destroy and conquer. Only the enemy shows you where you are weak. Only the enemy tells you where he is strong. And the rules of the game are what you can do to him and what you can stop him from doing to you. I am your enemy from now on. From now on I am your teacher.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Ender’s Game, ou o Jogo do Exterminador no Brasil, é um clássico moderno da ficção científica. Apesar disso, boa parte de seu aspecto sci-fi aparece apenas no treinamento das crianças e na presença de alienígenas. O miolo da história é sobre a desfiguração emocional que a guerra é capaz de causar em qualquer pessoa, e em como isso pode ser explorado por pessoas inescrupulosas – não estou afirmando que os militares no livro são vilões típicos, apenas que eles precisam de um elevado grau de sociopatia para ir adiante com algumas das decisões que tomam. A grande pergunta do livro é se os sacrifícios exigidos dos personagens vale a pena, se a vitória justifica os meios.

Pontos baixos: Os irmãos de Ender são tão geniais quanto ele, mas não possuem o perfil psicológico adequado, o que provavelmente é uma alegoria quanto a destino ou sorte. Para caracterizar isso, eles recebem papeis importantíssimos na Terra, como uma dupla de conspiradores planejando manipular os rumos políticos dos governos. Até chegam a interromper a história do Ender para evoluir a trama deles, mas, no entanto, não vão a lugar algum e não fazem nada de relevante. Acabam assumindo o controle do mundo, de um jeito meio obscuro, mal explicado. Dão tanto destaque para eles, mas parece um desperdício.

Pontuação final: 803. Divertido, trágico e deprimente.

Características:
O Jogo do Exterminador
Orson Scott Card
Editora Devir
380 páginas
R$ 34 (editora) ou US$ 4,35 (Amazon)

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Agent of Change, de Sharon Lee e Steve Miller

Sinopse: Milhares de anos no futuro, a raça humana se espalhou tanto pelo espaço que deu origem a novas espécies. Temos o Terran, terráqueo típico, o Liaden, de estatura menor e poderes mentais bem desenvolvidos, e o Yxtrang, prováveis descendentes de um experimento genético para criar soldados perfeitos. Sem falar nos alienígenas propriamente ditos, também.

Neste cenário começa a saga do Liaden Universe, com o encontro do futuro casal Val Con yos’Phelium, um liaden espião e assassino treinado, e Miri Robertson, mercenária Terran. Se encontram por acaso, quando Val Con está fugindo da polícia após ter matado várias pessoas, e Miri está sendo perseguida por um influente clã de mafiosos. A princípio se unem para escapar de seus problemas mútuos, mas estes acabam piorando, ameaçando cada vez mais a vida dos dois. E então, se apaixonam.

Capa:
Agent of Change
© Baen Ebooks

Trecho:

“Every time you get the world by the tail, she thought, you gotta remember there’s teeth on the other end.”

Pontos altos: o relacionamento de Val Con e Miri é o eixo central do livro, e felizmente foi escrito muito bem. Ele avança lenta e dolorosamente, mas de modo satisfatório, sempre progredindo – não há reveses, traições, desconfiança – apenas confiança sendo criada e cultivada. O romance funciona muito bem, e faz deles personagens melhores por isso. No cenário do livro também se destacam os grotescos Yxtrang, e o pavor que provocam em todo mundo, e as cautelosas alienígenas Clutch Turtles.

Pontos baixos: Val Con é uma espécie de super-assassino, e tanto ele quanto Miri tem medo que ele se descontrole e machuque alguém – ele mais do que ela. No entanto faz mancadas terríveis e consegue ser derrotado ou quase morto, obrigando Miri a se entregar para preservá-lo. É muita propaganda para pouco resultado. Dentro do cenário, é uma pena mas não consegui sentir muita simpatia pelos Liaden. Não gosto de ficção científica que adapta elementos de fantasia, ou seja, não gosto de elfos espaciais. Outra coisa irritante é que Agent of Change acaba em um tremendo cliffhanger, que só volta a ser abordado no terceiro livro (já li o segundo, e acho que se passa antes dessa primeira história, ou quase ao mesmo tempo).

Pontuação final: 639. Bom romance, ambiente apenas razoável.

Características:
Agent of Change
Sharon Lee & Steve Miller
Baen Ebooks
308 páginas
US$ 0 (gratuito no site da editora)

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Cidade de Ladrões, de David Benioff

Sinopse: Stalingrado, auge da Segunda Guerra Mundial. O exército alemão cercou a famosa cidade russa, e seus habitantes morrem de fome segurando um rifle nas mãos. O protagonista é Lev Beniov, adolescente responsável por “vigiar” o terraço do prédio onde mora, junto com seus amigos. Durante uma noite rotineira, enquanto dividem uma cebola para o jantar, avistam um paraquedista alemão caindo, morto, próximo de seus postos. Correm até ele e saqueiam o que acham, mas Lev acaba sendo preso por uma patrulha russa – tudo que é encontrado nos inimigos pertence ao governo, e roubar do governo é um crime punível com morte. Mas ao invés de ser fuzilado, o jovem russo tem a chance de se juntar a um desertor em uma missão absurda para atender os caprichos de um general.

Capa:
city of thieves
© Objetiva

Trecho:

“Nunca tínhamos sentido tanta fome; nunca tínhamos sentido tanto frio. Quando dormíamos, se dormíamos, sonhávamos com as delícias que tínhamos comido de maneira tão descuidada sete meses antes — todo aquele pão com manteiga, os bolinhos de batata, as salsichas — comidos com desatenção, engolindo sem sentir o gosto, deixando grandes sobras em nossos pratos, restos de gordura. Em junho de 1941, antes de os alemães chegarem, achávamos que éramos pobres. Mas junho ficou parecendo o paraíso quando veio o inverno.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: A amizade entre Lev e Kolya, os diálogos absurdos e humanos, as situações de absoluto horror e descrença. Cidade de Ladrões é um bom romance de guerra, e traz todos os elementos típicos de um livro que mostra o ponto de vista de um soldado – apesar do protagonista ser um civil. Quando enfrentam o canibal o livro está em seu auge quanto à um exemplo do que a guerra é capaz, mesmo sem envolvimento direto do inimigo ou de um campo de batalha. Todo mundo é destruído pelo conflito, e a estada dos amigos em Stalingrado mostra muito bem isso. O final é terrível e ótimo.

Pontos baixos: Quando saem da cidade a história perde um bocado de sua veracidade. Lev não possui treinamento ou mesmo aptidão física, no entanto se garante ao lado de soldados veteranos, chegando mesmo a ter uma participação importante quando vão atrás de alguns oficiais nazistas. Também se apaixona por uma atiradora de elite, e o fato é interessante do ponto de vista dele, mas o livro nunca consegue explicar o que fez ele sentir-se desse modo. A menina não tem personalidade alguma, tudo que faz é matar inimigos e dar ordens. Teria sido uma atração meramente física?

Pontuação final: 697. De adolescente desnutrido a máquina assassina em uma semana.

Características:
Cidade de Ladrões
David Benioff
Objetiva (Alfaguara)
368 páginas
R$ 19,90 (editora)

Extra: O site Audible.com tem uma versão do livro narrada pelo ator Ron Perlman. Sensacional.

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Altered Carbon, de Richard K. Morgan

Sinopse: Vários séculos no futuro, a vida humana está cada vez mais barata. Se alguém te matar, basta garimparem o seu cérebro em busca de um chip, devolver o conteúdo para um computador e baixar sua personalidade e memórias dentro de um corpo novo. Caso você tenha dinheiro para isso, claro. Para os menos afortunados, algumas décadas de existência virtual são a alternativa. Melhor do que morrer, provavelmente.

Takeshi Kovacs é ou era membro de um exército mercenário de elite, operando em vários planetas. Depois que ele e sua parceira são mortos antes de uma missão, acorda no dia seguinte (60 anos depois, na verdade), na Terra. Um dos bilionários mais poderosos do planeta e vizinhanças quer contratá-lo para descobrir a verdade por trás de um crime: por que ele se matou? O que teria levado um sujeito rico o bastante para fazer backups diários e ter vários corpos sobressalentes explodir o próprio crânio? Ou teria ele sido assassinado, como prefere acreditar, apesar de todas evidências apontarem o contrário?

Capa:
Altered Carbon
© Del Rey

Trecho:

“The personal, as everyone’s so fucking fond of saying, is political. So if some idiot politician, some power player, tries to execute policies that harm you or those you care about, take it personally. Get angry. The Machinery of Justice will not serve you here – it is slow and cold, and it is theirs, hardware and soft-. Only the little people suffer at the hands of Justice; the creatures of power slide from under it with a wink and a grin. If you want justice, you will have to claw it from them. Make it personal. Do as much damage as you can. Get your message across. That way, you stand a better chance of being taken seriously next time.”

Pontos altos: Richard K. Morgan sentou-se um dia na sua escrivaninha e fez uma lista magnífica de coisas que ele gostaria de ver no futuro e outras que ele deve achar que serão inevitáveis. E nesse exercício ele criou ou popularizou conceitos de cyberpunk que influenciam obras nesse gênero até o dia de hoje. Desde o comportamento da sociedade no futuro, a estética, religião, economia, tecnologia… Altered Carbon deve ter rendidos algumas monografias nas mãos de sociólogos por aí.

Outra coisa que me espantou são as cenas de sexo, descritas em detalhe, específicas e demoradas. Apesar de a maioria das minhas leituras serem geralmente recomendadas para adultos, fazia tempo que não lia alguém tão sem medo de escrever sobre sexo.

Pontos baixos: Mencionei que Altered Carbon é um livro policial? Acho que passei essa ideia na sinopse, há alguns parágrafos. Curiosamente, eu vivia esquecendo desse fato enquanto lia. O futuro criado pelo autor é deslumbrante, e, aparentemente, até ele se deixou distrair com tudo que ia criando e explicando em cada capítulo. Como livro policial, esse não funciona muito bem – honestamente, é a parte mais fraca da trama. Kovacs tira conclusões com pouquíssimo material, e parece nunca errar um palpite. Todas as pistas que investiga de algum modo se conectam ao crime principal, mesmo que às vezes fique a impressão que ele próprio force essas conexões.

Pontuação final: 751. Futuro incrível, trama meio chata.

Características:
Altered Carbon
Richard K. Morgan
Del Rey
544 páginas
US$ 7,99 (Amazon)

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God’s War, de Kameron Hurley

Sinopse: dois países em guerra, em um planeta desértico. Toda a tecnologia e a magia locais derivam da manipulação de insetos – eles movem carros, criam barreiras, atacam e curam pessoas. Nyx, a protagonista, é uma assassina profissional do grupo Bel Dame, composto exclusivamente de mulheres. Está fazendo um trabalho freelancer quando é acusada de cometer algum crime ou heresia, e acaba sendo expulsa da ordem e encarcerada. Após a prisão cria um grupo de mercenários onde especialistas e pessoas com poderes diversos se reúnem para caçar e capturar ou matar alvos. Não há muito dinheiro, mas a vida é emocionante. Só que tudo pode acabar, mais uma vez, quando Nix aceita um contrato que a fará enfrentar suas antigas irmãs Bel Dame, algumas das quais acham que ele ainda não foi punida o bastante.

Capa:
God's War
© Night Shade Books

Trechos:

“She offered Nyx a ride in exchange for a finger’s length of blood to feed the enormous silk beetle she kept in a covered cage next to her left hip, pressed against her battered pistol.”

“The double dawn had risen; the orange sun overpowered the wan light of the blue sun, and the silt-filtered light caught the world on fire.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Hurley criou não apenas um mundo terrível e extraordinário, repleto de personagens fascinantes e cruéis, complexos e tristes, como também o completou com um sistema de magia inacreditável, baseado na utilização de insetos. Cura e regeneração, por exemplo, são tão avançadas que a substituição de órgãos de torna algo rotineiro. No meio de uma guerra que eliminou quase todos os homens de uma das nações, as mulheres facilmente ocupam seus postos na matança, intimidação, preconceito e chantagem – humanos são todos iguais. No grupo de Nix, todo mundo parece ter algo terrivelmente errado para esconder, mas graças a seus obscuros passados conseguem conviver harmoniosamente bem juntos. A história é violenta e rápida, introduzindo um novo elemento de esperança e decepção no meio desse planeta onde todos parecem ter enlouquecido de ódio.

Pontos baixos: O sequestro de personagens secundários, e mesmo primários, se torna algo tão recorrente que é um pouco ridículo. Aparentemente a trama só avança em certos pontos quando alguém finalmente é raptado – você chega a tentar adivinhar quem será a próxima vítima a se encontrar com um capuz na cabeça e alvo de criativas e excessivamente detalhadas torturas.

Pontuação final: 760. Excelente mundo, precisa ser melhor explorado.

Características:
God’s War
Kameron Hurley
Night Shade Books
288 páginas
US$ 9,99 (Amazon) ou US$ 6,00 (Baen Ebooks)

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