Category Archives: Recomendações

Altered Carbon, de Richard K. Morgan

Sinopse: Vários séculos no futuro, a vida humana está cada vez mais barata. Se alguém te matar, basta garimparem o seu cérebro em busca de um chip, devolver o conteúdo para um computador e baixar sua personalidade e memórias dentro de um corpo novo. Caso você tenha dinheiro para isso, claro. Para os menos afortunados, algumas décadas de existência virtual são a alternativa. Melhor do que morrer, provavelmente.

Takeshi Kovacs é ou era membro de um exército mercenário de elite, operando em vários planetas. Depois que ele e sua parceira são mortos antes de uma missão, acorda no dia seguinte (60 anos depois, na verdade), na Terra. Um dos bilionários mais poderosos do planeta e vizinhanças quer contratá-lo para descobrir a verdade por trás de um crime: por que ele se matou? O que teria levado um sujeito rico o bastante para fazer backups diários e ter vários corpos sobressalentes explodir o próprio crânio? Ou teria ele sido assassinado, como prefere acreditar, apesar de todas evidências apontarem o contrário?

Capa:
Altered Carbon
© Del Rey

Trecho:

“The personal, as everyone’s so fucking fond of saying, is political. So if some idiot politician, some power player, tries to execute policies that harm you or those you care about, take it personally. Get angry. The Machinery of Justice will not serve you here – it is slow and cold, and it is theirs, hardware and soft-. Only the little people suffer at the hands of Justice; the creatures of power slide from under it with a wink and a grin. If you want justice, you will have to claw it from them. Make it personal. Do as much damage as you can. Get your message across. That way, you stand a better chance of being taken seriously next time.”

Pontos altos: Richard K. Morgan sentou-se um dia na sua escrivaninha e fez uma lista magnífica de coisas que ele gostaria de ver no futuro e outras que ele deve achar que serão inevitáveis. E nesse exercício ele criou ou popularizou conceitos de cyberpunk que influenciam obras nesse gênero até o dia de hoje. Desde o comportamento da sociedade no futuro, a estética, religião, economia, tecnologia… Altered Carbon deve ter rendidos algumas monografias nas mãos de sociólogos por aí.

Outra coisa que me espantou são as cenas de sexo, descritas em detalhe, específicas e demoradas. Apesar de a maioria das minhas leituras serem geralmente recomendadas para adultos, fazia tempo que não lia alguém tão sem medo de escrever sobre sexo.

Pontos baixos: Mencionei que Altered Carbon é um livro policial? Acho que passei essa ideia na sinopse, há alguns parágrafos. Curiosamente, eu vivia esquecendo desse fato enquanto lia. O futuro criado pelo autor é deslumbrante, e, aparentemente, até ele se deixou distrair com tudo que ia criando e explicando em cada capítulo. Como livro policial, esse não funciona muito bem – honestamente, é a parte mais fraca da trama. Kovacs tira conclusões com pouquíssimo material, e parece nunca errar um palpite. Todas as pistas que investiga de algum modo se conectam ao crime principal, mesmo que às vezes fique a impressão que ele próprio force essas conexões.

Pontuação final: 751. Futuro incrível, trama meio chata.

Características:
Altered Carbon
Richard K. Morgan
Del Rey
544 páginas
US$ 7,99 (Amazon)

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God’s War, de Kameron Hurley

Sinopse: dois países em guerra, em um planeta desértico. Toda a tecnologia e a magia locais derivam da manipulação de insetos – eles movem carros, criam barreiras, atacam e curam pessoas. Nyx, a protagonista, é uma assassina profissional do grupo Bel Dame, composto exclusivamente de mulheres. Está fazendo um trabalho freelancer quando é acusada de cometer algum crime ou heresia, e acaba sendo expulsa da ordem e encarcerada. Após a prisão cria um grupo de mercenários onde especialistas e pessoas com poderes diversos se reúnem para caçar e capturar ou matar alvos. Não há muito dinheiro, mas a vida é emocionante. Só que tudo pode acabar, mais uma vez, quando Nix aceita um contrato que a fará enfrentar suas antigas irmãs Bel Dame, algumas das quais acham que ele ainda não foi punida o bastante.

Capa:
God's War
© Night Shade Books

Trechos:

“She offered Nyx a ride in exchange for a finger’s length of blood to feed the enormous silk beetle she kept in a covered cage next to her left hip, pressed against her battered pistol.”

“The double dawn had risen; the orange sun overpowered the wan light of the blue sun, and the silt-filtered light caught the world on fire.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Hurley criou não apenas um mundo terrível e extraordinário, repleto de personagens fascinantes e cruéis, complexos e tristes, como também o completou com um sistema de magia inacreditável, baseado na utilização de insetos. Cura e regeneração, por exemplo, são tão avançadas que a substituição de órgãos de torna algo rotineiro. No meio de uma guerra que eliminou quase todos os homens de uma das nações, as mulheres facilmente ocupam seus postos na matança, intimidação, preconceito e chantagem – humanos são todos iguais. No grupo de Nix, todo mundo parece ter algo terrivelmente errado para esconder, mas graças a seus obscuros passados conseguem conviver harmoniosamente bem juntos. A história é violenta e rápida, introduzindo um novo elemento de esperança e decepção no meio desse planeta onde todos parecem ter enlouquecido de ódio.

Pontos baixos: O sequestro de personagens secundários, e mesmo primários, se torna algo tão recorrente que é um pouco ridículo. Aparentemente a trama só avança em certos pontos quando alguém finalmente é raptado – você chega a tentar adivinhar quem será a próxima vítima a se encontrar com um capuz na cabeça e alvo de criativas e excessivamente detalhadas torturas.

Pontuação final: 760. Excelente mundo, precisa ser melhor explorado.

Características:
God’s War
Kameron Hurley
Night Shade Books
288 páginas
US$ 9,99 (Amazon) ou US$ 6,00 (Baen Ebooks)

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The Fuller Memorandum, de Charles Stross

Sinopse: Uma nova aventura de Bob Howard, agente secreto e nerd da Laundry, uma organização governamental inglesa que atende aos casos sobrenaturais que ameaçam a nação e a Rainha. Desta vez Bob e sua esposa Mo, uma cientista que toca um violino capaz de matar demônios, são alvos de um culto que pretende invocar e controlar uma entidade antiga e poderosa, com o propósito de acelerar o apocalipse. E para piorar a vida de Bob, seu chefe, um dos figurões da Laundry, desaparece deixando apenas pistas misteriosas.

Capa:
fuller memorandum
© Ace

Trechos:

“No, our magic is computational. The realm of pure mathematics is very real indeed, and the… things… that cast shadows on the walls of Plato’s cave can sometimes be made to listen and pay attention if you point a loaded theorem at them. This is, however, a very dangerous process, because most of the shadow-casters are unclear on the distinction between pay attention and free lunch here. My job – applied computational demonologist – comes with a very generous pension scheme, because most of us don’t survive to claim it.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Após dois livros extremamente bem-humorados, em certas partes cômicos, Charles Stross resolveu reajustar a mistura de horror e espionagem, aumentando a dosagem da primeira. Sacrifícios humanos, monstros devoradores de gente, instrumentos musicais feitos de ossos humanos, canibalismo e mortos-vivos. Acho que esse é um resumo conservador de tudo que aparece nessa história, mordendo o calcanhar do Bob Howard. Enquanto o humor faz um pouco de falta, ele ainda está presente nos comentários mordazes do narrador, que está ficando cada vez mais cínico enquanto envelhece.

Pontos baixos: a transição é um pouco abrupta demais. O livro é bom enquanto uma história isolada sobre espiões e sósias do Cthulhu coabitando a Terra, mas difere radicalmente do tom dos primeiros. Talvez tenha sido intenção do autor desde o início que as histórias da Laundry fossem independentes uma da outra, mas elas realmente não dão essa impressão. Depois de ver o Bob escapar quase incólume de tantas coisas horríveis, é meio chocante ver o que acontece com ele desta vez, e as sequelas. Para onde será que o quarto livro foi, depois disso?

Pontuação final: 779. Bom, mas repentino.

Características:
The Fuller Memorandum
Charles Stross
Ace
323 páginas
US$ 7,99 (Amazon)

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The Curse of Chalion, de Lois McMaster Bujold

Sinopse: A história começa com Cazaril retornando para casa, um mendigo quebrado por meses de escravidão, com nada além da roupa do corpo. Está vagando a pé por semanas, planejando pedir seu velho emprego de volta. Para sua sorte, não apenas é aceito novamente, como também acaba promovido a tutor de uma importante nobre local. Algumas reviravoltas depois, Cazaril se vê no meio de intrigas palacianas, tramando seus próprios planos, e tentando adivinhar o que os deuses querem dele.

Capa:
The Curse of Chalion
© Harper Collins

Trechos:

Events may be horrible or inescapable. Men have always a choice – if not whether, then how, they may endure.”

I realize now why I never saw saints, before. The world does not crash upon their wills like waves upon a rock, or part around them like the wake of a ship. Instead they are supple, and swim through the world as silently as fishes.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: The Curse of Chalion não é um típico livro de fantasia. Ao invés de inventar um reino mágico com criaturas encantadas e sobrenaturais, a autora, Lois McMaster Bujold, concentrou toda sua criatividade na religião deste mundo. O sistema de cinco deuses (Pai, Mãe, Filho, Filha e o Bastardo) é complexo, realista e abrangente, além de, nesse cenário, interagir pesadamente com os personagens. Estou falando no nível da Ilíada, com deuses alterando o destino de batalhas, mas com regras bem mais interessantes. Santos existem no mundo de Cazaril, e seres divinos operam através deles – se tiverem permissão. A trama é magnífica, e uma das últimas cenas, quando o protagonista perde sua santidade, é magnífica.

Personagens importantes morrem ou sofrem perdas terríveis, de modo inesperado, porém coerente. O horror faz sentido dentro da trama, não está ali apenas para chocar o leitor. E esse livro comprova uma opinião que estava formulando sobre a obra de Bujold: ela brilha quando cria o sofrimento. A vida de Cazaril antes do livro começar, os momentos em que ele descreve o que aconteceu enquanto era um escravo, são inacreditáveis. Uma autora de qualidade ímpar.

Pontos fracos: Exceto por Cazaril e alguns com uma personalidade extremamente exótica, é difícil diferenciar os personagens principais uns dos outros – é como se o convívio constante produzisse pessoas semelhantes demais umas às outras. Em certos pontos não conseguia distinguir um coadjuvante vivo do outro que havia sido assassinado, sempre me pegava perguntando “ué, ele não tinha morrido?”. É claro que Caz compensa o sabor aguado de seus acompanhantes sendo uma combinação incrível de honra, sacrifício, covardia e crença.

Ia colocar aqui que o encontro fortuito entre Caz e o herdeiro de Ibra, justamente um jovem que ele havia salvado meses antes era um pouco forçado, coincidência demais, mas me lembrei que isso faz parte da grande revelação que ele tem na cena que mencionei nos “pontos altos”.

Pontuação final: 903. Um dos melhores livros da autora e em geral.

Características:
The Curse of Chalion
Lois McMaster Bujold
Harper Collins
512 páginas
US$ 9,78 (Amazon)

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Agatha H and the Clockwork Princess, de Phil e Kaja Foglio

Sinopse: Segundo livro das aventuras de Agatha Heterodyne, uma cientista louca e sua saga para descobrir a verdade por trás do desaparecimento de seus pais. Desta vez ela precisa cruzar um deserto repleto de monstruosidade mecânicas, se juntar ao circo e ser responsabilizada pela possível destruição de toda uma cidade. E a pior parte começa quando vira alvo de uma família de cientistas igualmente insanos, incluindo uma princesa não exatamente humana.

Capa:
Agatha H and the Clockwork Princess
© Night Shade Books

Trechos:

“If anything happens, I’ll give the signal. You know, the one where I scream like a diva.”

“The Prince wants to see a specific show,” she looked up with tired eyes. “The Socket Wench of Prague.” Abner’s eyes bugged. Payne shrugged. “Okay—not so good a plan.” Marie cleared her throat. “P.S.—Tart It Up.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Ao contrário do primeiro livro, onde os autores precisam criar e explicar o cenário, apresentar a protagonista e mostrar as peculiaridade de seu cotidiano, Clockwork Princess é pura trama. Agatha finalmente tem um objetivo, e é tão poderosa (tanto na parte inventora quanto em personalidade), que consegue empurrar a história na direção que lhe interessa. Não há desperdícios de cenas ou acontecimentos paralelos sem utilidade, todos atos da protagonista ou lhe aproximam do castelo de sua família ou ajudam a moldar seu caráter. Ótimos personagens de apoio, ambientes ainda mais exóticos e um desfecho heróico.

Pontos baixos: Estou penando um pouco para encontrar algo do que reclamar. Talvez quando Agatha se afasta do circo no ato final, os eventos pelos quais seus colegas circenses passam ficam um tanto inexplicados. Eles têm um plano para atravessar Sturmhalten, que é desmontado pelo príncipe local, daí desaparecem quando Agatha vai ao castelo e depois ressurgem para o desfecho. Não há uma explicação do que acontece com eles nesse meio tempo, dá a impressão que ficaram parados do lado de fora da cidade esperando. É o único ponto estranho do livro.

Pontuação final: 782. Melhor que os quadrinhos.

Características:
Agatha H and the Clockwork Princess
Phil e Kaja Foglio
Night Shade Books
481 páginas
US$ 11,09 (Amazon) ou US$ 6,00 (Baen)

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Shades of Milk and Honey, de Mary Robinette Kowal

Sinopse: Um romance ambientado na Inglaterra do século XVIII, sobre uma talentosa jovem de pouca beleza e sua belíssima porém incompetente irmã. A trama é típica de Jane Austen, com mal entendidos afastando e aproximando atenções amorosas de maridos em potencial, mas trazendo um fator a mais: a habilidade de criar ilusões (chamadas no livro de Glamour) é algo praticamente cotidiano, uma arte feminina tal como costura ou música. A protagonista, Jane, possui um dom acima do normal para ilusões, o que acaba atraindo a atenção de um tutor londrino – mas ela não tem tempo para conversas, pois sua irmã pode estar se envolvendo em um escândalo que irá destruir sua honra perante a sociedade.

Capa:
Shades of Milk and Honey
© Tor Books

Trecho:

“One must not put trust in novelists, Beth; they create worlds to fit their own needs and drive their characters mad in doing it.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: O estilo de romance de Austen é tão popular que atrai estudioso e leitores ainda hoje em dia, além de servir de base para milhares de adaptações e inspirar número igual de obras. Mary Robinette Kowal trabalha bem as situações típicas desse modelo de história, criando uma trama agradável, bem-humorada e constrangedora, em um livro de rápida leitura. O amor/afeto/paixão motiva todos os grandes momentos da história, o que produz personagens com motivações fáceis de reconhecer e se identificar. A introdução do Glamour no cenário também é feita de maneira sutil e cuidadosa, fazendo dele uma parte natural deste mundo.

Pontos baixos: Quase nada acontece. As intrigas familiares são divertidas, mas para uma história em que pessoas são capazes de alterar a percepção da realidade, existe certa expectativa que, eventualmente, as ilusões terão uma função maior na trama – mas esse momento nunca chega. Existe uma cena em que os principais personagens estão em perigo de morte, e o Glamour é usado por Jane, mas a situação teria chegado no mesmo desfecho apesar dela. Pelo menos essa é a impressão que tive. Sou um fã tremendo dos contos da Mary Robinette Kowal, já li dezenas deles, e estava ansioso para ler sua estreia nesse formato mais longo. Talvez isso tenha atrapalhado minha avaliação do livro, mas no final das contas achei ele muito parado e com pouco propósito. O Glamour foi desperdiçado.

Pontuação final: 674. Ilusões que não servem para nada.

Características:
Shades of Milk and Honey (Glamourist Histories)
Mary Robinette Kowal
305 páginas
Tor Books
US$ 9,99 (Amazon)

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Trader to the Stars, de Poul Anderson

Sinopse: Segundo livro da Polesotechnic League, sobre um futuro onde a humanidade se espalhou pelas galáxias e encontrou inúmeras raças alienígenas – contado do ponto de vista de mercadores espaciais. São três histórias mais curtas neste volume, Hiding Place, Territory e The Master Key, onde diferentes personagens contam seus encontros com Nicholas Van Rijn, o obeso, mulherengo, ganancioso e genial presidente da companhia Solar Spice and Liquors. Em uma nave avariada, um planeta que decide hostilizar pesquisadores humanos ou durante uma reunião entre comerciantes, um dilema geralmente mortal é apresentado, e resta a Van Rijn apresentar uma resposta, enquanto come, se embebeda e se diverte, para irritação dos protagonistas.

Capa:
David Falkayn Star Trader
© Baen

Trecho:

“Van Rijn threw up his hands. “Everyone, they call me apocalyptic beast,” he wailed, “and I am only a poor lonely old man in a sea of grievances, trying so hard to keep awash. One good boy with promises I find, I watch him from before his pants dry out for I know his breed. I give him costly schooling in hopes he does not turn out another curdlebrain, and no sooner does he not but he is in the locker and my fine new planet gets thrown to the wolves!”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Van Rijn é um personagem complexo e divertido, apesar de ser um tipo machista clássico, fruto dos anos 60. Seu comportamento diverge ridiculamente dependendo do gênero do narrador da história, de arrogante e exigente a assediador e desesperado. E você nunca tem certeza se isso é realmente parte de sua personalidade, ou se trata de um movimento calculado para conseguir exatamente o que ele precisa do protagonista. E Van Rijn sempre traz uma surpresa – quando você chega a acreditar que ele está fazendo algo no interesse da comunidade alienígena local, ele mostra como, a longo prazo, está pensando apenas em aumentar o lucro de sua companhia. Claro que o planeta será salvo, mas, com ele, centenas de milhares de clientes em potencial.

Pontos baixos: Acho que a principal reclamação quanto a essas histórias do Van Rijn é a estrutura repetitiva. Como mencionei na sinopse, elas sempre apresentam um enigma que ele vai resolver enquanto farreia – mas também incluem o protagonista que sempre discorda dele e se indigna, até ser finalmente conquistado, ou convencido. E as cantadas, novamente, como mencionado acima, são bem incômodas, e um reflexo daquele velho patrão que assediava sexualmente suas secretarias como se isso fizesse parte da descrição do emprego (existe até hoje, eu sei, em tudo quanto é empresa, mas antigamente sequer haviam leis protegendo os subordinados desses avanços). O pior é que elas acabam dando certo.

Pontuação final: 741. Curtas e divertidas.

Características (Trader to the Stars não está mais em catálogo algum, mas suas três histórias podem ser encontradas nas seguintes coletâneas):

The Van Rijn Method
Poul Anderson
635 páginas
Baen Books
US$ 6,99 (Amazon) (Baen)

David Falkayn: Star Trader
Poul Anderson
Baen Books
512 páginas
US$ 6,99 (Amazon) (Baen)

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The Verdant Passage, de Troy Denning

Sinopse: o primeiro romance inspirado no cenário de campanha Dark Sun, um dos clássicos do RPG Dungeons and Dragons. Os leitores irão acompanhar as aventuras de um grupo de gladiadores, uma feiticeira e um nobre com habilidades psíquicas, unidos para enfrentar a ameaça de um rei tirano, com poderes divinos. Em um mundo onde a escravidão é corriqueira e a magia consome a vida de plantas e animais, que tipo de perigo é capaz de reunir uma equipe tão incomum?

Capa:
the verdant passage
© Wizards of the Coast

Trecho:

“Kalak reached up and placed his hand on Tithian’s shoulder. With its gnarled fingers and swollen joints, it looked more like a claw than a human appendage.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Vários aspectos da vida cotidiana de Athas, o mundo de Dark Sun, são abordados e explicados, como a vida dos escravos, as negociações comerciais no submundo, o funcionamento da Aliança Velada (os magos da “resistência”), os perigos da vida de um templário do rei. Toda essa informação pode ser útil para mestes e jogadores do RPG, para dar um toque mais realista em suas sessões. Outro aspecto cativante do livro é o modo como poderes psíquicos, ou psiônicos, são utilizados – os usuários precisam se concentrar em um tipo de visualização, que orienta seus ataques ou outras proezas mentais. Isso rende boas batalhas.

Pontos baixos: Tinha ouvido falar desse livro e suas continuações na década de 90, quando fiquei sabendo que Dark Sun existia. Nas antigas salas de chat de D&D o pessoal discutia os acontecimentos, sua influência no cânone do jogo e tudo mais. Ou seja, tinha expectativas bem irreais para The Verdant Passage, e elas, obviamente, foram destroçadas pela leitura. Boa parte dos acontecimentos ou não fazem sentido ou são completamente inúteis – o cotidiano é explicado, verdade, mas muitas vezes às custas do andamento da trama, que aparenta parar enquanto os personagens ouvem uma explicação sem propósito prático ou discutem um hábito da região. Essas últimas são especialmente temíveis, dado os diálogos terríveis do livro.

O suposto protagonista, Rikus, não faz nada, não serve para nada, e em seu capítulo introdutório, é espancado quase até a morte por um único monstro, após uma demonstração de arrogância – e ele é o melhor e mais experiente gladiador da cidade. O nobre psiônico, cujo nome até já esqueci, é a encarnação da bondade, algo estranho em um mundo tão terrível, mais estranho ainda porque nunca explicam sua motivação para querer tanta justiça e igualdade – ele é praticamente um Buda, nasceu bom. E a maga Sadira, cuja função é colar as narrativas paralelas em uma só, coitada, põe em risco toda a aliança e os planos contra Kalak (várias vezes), causa a morte de seu mestre e ainda assim, ao invés de ser expulsa ou eliminada, continua fazendo o que bem entender, sem consequências – deve ser graças à tal beleza descomunal que possui.

Pontuação final: 520. Para os fãs hardcore.

Características:
The Verdant Passage: Prism Pentad, Book 1
Troy Denning
Wizards of the Coast
352 páginas
US$ 5,59 (Amazon)

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Monster Hunter International, de Larry Correia

Sinopse: Owen Zastava Pitt tem o pior chefe do mundo: incompetente, mal-humorado, abusivo, e pior de tudo, um lobisomem devorador de humanos. Este último fato foi descoberto quando Owen estava fazendo hora extra em seu emprego como contador – acreditava que estava sozinho, até o chefe convocá-lo para sua sala, onde lhe deu a péssima notícia: ele era o jantar. Mas, para azar do monstro, Owen é um fanático por armas, com treinamento de combate e baixa tolerância para ameaças – após destruírem quase todo o escritório, o contador acaba saindo vitorioso, em uma maca, direto para a sala de cirurgia. Caso sobreviva, uma nova oportunidade de emprego está lhe aguardando.

Capa:
Monster Hunter International
© Baen

Trecho:

“I thought he was a pompous ass from the moment I had met him, and I felt the primal and instinctual need to beat him up and take his lunch money.”

“I passed the time by flicking pennies at the roaches scurrying up the walls. A few of the bugs were big enough that they shrugged off the impacts and one particularly impressive specimen even latched onto the coin and kept it.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Muita ação, muitas referências a filmes de horror, e muitos detalhes sobre armas (gun porn), acessíveis mesmo para quem não entende do assunto em seus aspectos técnicos. A trama é interessante, com uma ameaça extradimensional se aliando a vampiros ridiculamente poderosos, uma espécie de Cthulhu + Drácula, com mercenários extremamente armados no caminho deles. O cenário é explicado ao leitor graças ao treinamento de novatos pelo qual Owen passa, e o lado do vilão é abordado em flashbacks que influenciam fisicamente o andamento da história, evitando que eles se tornem chatos. Leitura rápida e cheia de entusiasmo, cinematográfica.

Pontos baixos: Semelhante ao que aconteceu em Starship: Mutiny, resenhado recentemente por aqui, temos um problema de protagonista excessivamente perfeito. Em pouco tempo (acho que o livro se passa em uma semana), Owen passa de contador com passado sombrio a novato extremamente promissor, médium, guerreiro exímio (se machuca bastante, mas ao invés de acabar na UTI, aguenta e vai em frente), manipulador de artefatos malignos, O Escolhido, salvador de todo o tempo e espaço, e ainda conquista a mulher de sua vida. Na segunda metade há uma armadilha onde quase todo mundo acaba morto, o que cria uma tensão inacreditável, e coloca o livro em um caminho muito promissor – mas Owen descobre como fazer o tempo voltar, salvando todo mundo. Daí em diante você sabe que nada vai dar muito errado para ele ou para as pessoas ao seu redor.

Pontuação final: 739. Falta ameaça, mas sobra diversão.

Características:
Monster Hunter International
Larry Correia
Baen
736 páginas
US$ 7,35 (Amazon) US$ 6,99 (Baen)

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Starship: Mutiny, de Mike Resnick

Sinopse: Wilson Cole é um militar no futuro distante, servindo na Marinha em uma guerra contra os alienígenas da Federação Teroni. Apesar de ter recebido várias medalhas por serviços prestados, continua sem sua própria nave, tendo finalmente chegado no ponto mais baixo de sua carreira, o Theodore Roosevelt. Com mais de cem anos na ativa, a nave espacial deveria ter sido aposentada há pelo menos metade disso, mas prossegue funcionando, servindo como uma espécie de “prisão” para oficiais insubordinados e tripulação incompetente ou criminosa. Como o terceiro em comando do Teddy R., Cole precisa encontrar um propósito para o resto de seu tempo de serviço, enquanto tenta colocar a nave em ordem – enfrentando o uso desenfreado de drogas, violência e falta de experiência prática de seus colegas.

Capa:
Starship Mutiny
© Pyr

Trecho:

“I’ll be honest, Mr. Cole – I am second to none in my admiration for your courage and your accomplishments. But I will not hesitate to deal with you in the harshest terms if you disobey an order or have a deleterious effect on the crew’s already lax discipline.”

O resto desta resenha contém spoilers!

Pontos altos: Starship: Mutiny é um bom exemplar de ficção científica militar, com detalhadas manobras de naves espaciais, negociações tensas via monitores enormes na ponte de comando, discussão de estratégias e planos, alienígenas malignos e desumanos. A trama não segue um propósito único, mas coloca a nave em várias situações diferentes, elaborando como o Wilson Cole consegue resolver o problema atual apesar de seus oficiais superiores e tripulação.

Pontos baixos: Apesar do título, o livro não é exatamente sobre a nave Theodore Roosevelt – e sim sobre o quão sensacional e espetacular o herói injustiçado Wilson Cole é. Ele é um estrategista tão genial que todas (todas mesmo) as suas interpretações sobre os movimentos do inimigo se mostram corretas, permitindo a ele sempre sair vitorioso, mesmo que às vezes precise trabalhar duro para tanto. Os demais personagens do livro mal possuem uma personalidade própria, de tão eclipsados pelo Cole. E o final também é bem implausível – condenado a morte porque a opinião pública é desfavorável demais? Apesar de toda a tecnologia disponível no futuro, ninguém consegue provar que as acusações são falsas? Querem mesmo que alguém acredite que toda a comunicação dentro de uma nave militar não fica gravada e arquivada? Acredito que os livros seguintes são melhores, já que é uma série de cinco volumes, e o autor normalmente é bem melhor do que isso.

Pontuação final: 597. Divertido, mas sem consistência.

Características:
Starship: Mutiny
Mike Resnick
Pyr
290 páginas
US$ 8,69 (Amazon)

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